Reflexões de Batom Vermelho

 



  Vestir um batom vermelho é um ato de identidade. Não é apenas sobre cor, nem sobre vaidade — é sobre saber quem se é, do que se gosta, o que se quer expressar, e como se caminha no mundo. Eu caminho assim: de salto alto, vestido ajustado ao meu corpo e uma boca pintada sem pedir licença. É o meu modo de marcar território sem dizer uma palavra alta.


  Sou uma pessoa de hábitos discretos. Falo baixo, não rio escancarado, e se vejo algo fora do lugar, prefiro conversar em particular. Sempre achei que corrigir alguém publicamente é uma forma silenciosa de humilhação, e quem se respeita — ou tem vergonha, como ouvi na infância — não envergonha os outros. Isso se reflete também na minha relação com a costura: cada ajuste, cada conserto, é um cuidado íntimo, uma conversa sussurrada entre tecido e agulha.


  Recentemente, em um desses eventos sociais que frequento, vivi uma situação que voltou à minha mente como uma costura que precisa ser refeita. Uma conhecida — dessas pessoas que chegam falando alto, rindo ainda mais alto, sem freio entre o pensamento e a boca — me cumprimentou com um: "Oi, boca de K'suco!"


  Sorri. Sorri porque a maturidade ensina que nem toda navalha precisa ser desembainhada. Mas o comentário ecoou, não pela ofensa — que, de fato, não encontrei —, mas pela reflexão que ele provocou. Como certas palavras, mesmo inofensivas em aparência, podem ressoar nos outros de maneiras inesperadas?


  Não é a primeira vez que ela age assim; já a vi comentar, aos brados, sobre a roupa justa de uma outra mulher, sobre a cor berrante de um vestido que "fazia os olhos arderem". Rindo aqui, eu confesso: é quase cômico de tão absurdo. Mas esse riso não é de divertimento — é de espanto. Fiquei pensando: que vazio é esse que precisa se preencher com tanto barulho? Que urgência é essa de nomear, corrigir, destacar o outro em público, como se o corpo alheio fosse domínio coletivo?


  Houve um tempo em que minha resposta a episódios assim seria rápida e cortante, como a lâmina bem afiada de uma tesoura de alfaiate. Eu sei ser navalha — e já fui, muitas vezes. Mas o tempo ensina, e com ele aprendi que a verdadeira elegância é não devolver agressão com agressão. Às vezes, a resposta mais afiada é o silêncio. Outras, é uma conversa tranquila, em hora apropriada, firmando limites com quem realmente pode compreendê-los.


  E sigo assim: costurando minha identidade a cada escolha — na roupa, no batom, nas palavras que falo e nas que prefiro calar. Porque estilo não é apenas o que se veste: é como se permanece de pé, mesmo quando tentam nos puxar para baixo com palavras toscas e risadas fáceis.


  Talvez um dia, num momento oportuno, eu ainda diga a ela — com a mesma elegância que bordo um vestido sob medida — que respeito é o tecido que sustenta qualquer convivência. Mas por ora, sigo: boca pintada, sorriso discreto, salto firme.
E a alma, sempre costurada com linha forte.




Comentários

  1. Mallu que sintonia incrível na sua escrita, me senti nessa escrita que fala sobre você mas ao mesmo tempo sobre mim. Obrigada

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    1. Essa reflexão é profunda e verdadeira. Consegui nela imprimir o que eu sou, dito de forma simples, e usando um experiência real, que não me ofendeu, mas colocou as engrenagens para girar e produzir o texto.

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