Entre linhas e Silêncios


Hoje, escrevo, sem querer de fato falar sobre isso. Mas não escrevo só o que quero, mas também o que eu preciso. Uma colega, uma mulher talentosa, criativa, reconhecida como empreendedora inspiradora, sobreviveu a uma tentativa de tirar a própria vida. A notícia chegou pesada, com surpresa numa Sexta-feira Santa. Quem diria?

Ela é daquelas que fazem muito e compartilham mais ainda. Projetos, cursos, ideias, vídeos motivacionais. Era impossível não notar seu fôlego aparentemente inesgotável. E, confesso, às vezes, ao ver mais um anúncio de novidade vindo dela, eu pensava: “Será que ela não está indo rápido demais?”. Mas logo o pensamento vinha com uma pontada de culpa. Seria isso inveja? Falta de apoio?

Hoje eu sei que não. Minha intuição costurava um alerta sutil: por trás da avalanche de realizações, havia talvez um cansaço profundo, uma solidão disfarçada de performance. Há silêncios que gritam. E nem sempre conseguimos escutá-los a tempo.

Como modista, passo os dias medindo tecidos, ajustando costuras, alinhando proporções. Mas há coisas que não se ajustam com linha e alfinete. A vida, às vezes, desfia por dentro. E quem costura demais por fora, talvez esteja tentando conter um rasgo invisível.

Ela sempre falava sobre quem não “somava”, quem puxava pra baixo, quem não entendia os “projetos”. E agora me pergunto: será que esses discursos eram defesas contra o medo de desacelerar? Medo de ser esquecida, invisível, humana demais?

Essa experiência não fala apenas dela. Fala de mim também. Fala de todas. Porque todas somos fortes até o dia em que não somos. Porque costurar sonhos é lindo, mas custa caro quando o tecido da alma vai se puindo sem cuidado.

Não estou aqui para julgar, nem para ensinar. Mal sei de mim. Escrevo para lembrar — a mim mesma e a quem mais precisar — que desacelerar não é fracasso. Que o sucesso pode ser silencioso. Que não somos só nossas criações, mas também nossas pausas. Que cuidar da mente não é frescura, é urgência.

Ela sobreviveu. E que bom. Que bom ainda tê-la entre nós. Que essa sobrevida traga mais leveza, menos cobrança. Que seus projetos possam vir com mais respiro. Que ela seja acolhida, de verdade, não só aplaudida. Repito: NÃO SÓ APLAUDIDA.

E que todas as profissionais, de linha, agulha e coração, ou de qualquer outra ocupação, inclusive e talvez principalmente as 'do Lar', possamos nos lembrar: toda força precisa de descanso. Toda costureira precisa também se costurar de vez em quando.


Comentários

  1. Que bom saber que está entre nós ensinando com sua sobrevivência o que realmente importa, não sou forte o tempo todo, não vou e nem quero agradar o outro. Tenho buscado entender o que eu sou e como agir em silêncio sem muito barulho, não quero chamar atenção, isso custa muito caro.

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    1. Pois é, todas nós podemos fazer muito, mas não o tempo todo. Nenhum recurso, seja físico, emocional, material...é inesgotável. E há quem insista em jogar sobre si mesma pressões imaginárias. "Um esforço para alcançar o vento", que não vale o que custa.

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