A costura do que sou


 Sempre fui uma leitora ávida. Digo "fui", pois percebo que hoje não leio tanto quanto antes. Ainda assim, a leitura segue como um dos pilares da minha formação e da forma como enxergo o mundo. Através dos livros, fui ampliando meu vocabulário, minha percepção, minha capacidade de fazer conexões, análises e comparações. E mais: fui me descobrindo.

Os livros me ensinaram a escutar ideias diferentes, a questionar, a dialogar com pessoas e pensamentos que jamais cruzariam meu caminho na vida prática. Eles me deram voz — mesmo sendo eu uma pessoa introvertida — e me ofereceram um universo inteiro para dentro e fora de mim.


A rotina, claro, às vezes nos afasta dos livros. Mas eu sempre digo (inclusive para mim mesma): dez minutos por dia podem reacender o hábito da leitura. E acredito mesmo nisso. Tenho consciência de que pequenos gestos cotidianos constroem grandes mudanças. Quando me dedico a ler, volto a sentir aquele prazer intenso de mergulhar em outros mundos, outras ideias. A leitura não é apenas distração — é reencontro. Ela me desafia, me inspira, me transforma.


Além da literatura, sou uma apaixonada por cinema. Gosto dos filmes ditos "difíceis" ou "estranhos", como os de Bergman. Para mim, o acesso à arte é como o acesso à comida: basta oferecer. Com o tempo, o gosto se desenvolve. Acredito firmemente que qualquer pessoa, ao ter contato com diferentes formas de arte, pode expandir sua sensibilidade.


O refinamento, seja cultural ou estético, não é um dom elitista — é uma construção que nasce do acesso, da experiência e da disposição para o novo.

É curioso que muitas pessoas ainda associem certas profissões ao grau de "instrução" ou "inteligência" de alguém. Eu sou costureira. Modista, como se dizia antigamente. Modelista de roupas femininas. Uma profissão que muitos consideram "simples", como se o trabalho manual estivesse em oposição ao saber.

Já ouvi histórias de colegas que dizem ter caído nesse ofício por falta de opção, ou por tradição familiar, quase como uma rendição. Eu não. Eu escolhi ser costureira. E me orgulho disso.


Desde muito cedo, soube que queria criar algo com as minhas próprias mãos. E, ao contrário do que muitos imaginam, a costura não foi uma alternativa por falta de opções — foi uma escolha consciente. Escolhi ser modista porque amo a arte de criar roupas femininas que sejam ao mesmo tempo funcionais e belas. Roupas que abracem, que empoderem, que revelem personalidade.


Mas, ao longo do meu caminho, percebi que há uma subestimação constante da minha profissão. Como se costurar fosse apenas "saber usar a máquina" ou "seguir moldes prontos". A verdade é que costurar exige uma combinação rara de técnica e intuição. Exige precisão, matemática, geometria, desenho técnico e, acima de tudo, sensibilidade.

Não é à toa que, muitas vezes, é no silêncio da minha mesa de corte que tenho meus maiores insights — sobre a vida, sobre mim mesma, sobre o mundo.


Estudo constantemente para aprimorar minha prática, busco entender o corpo feminino, suas formas e expressões, para criar peças que traduzam identidade e beleza. E mesmo com uma tesoura na mão e alfinetes na boca, não deixo de pensar no mundo, de conversar sobre cinema, geopolítica, filosofia.

Sei me expressar, sei argumentar, sei ouvir. Porque tudo isso também se aprende lendo, ouvindo, vivendo.


Acredito que a leitura, o cinema, a música e a costura se entrelaçam na minha vida como partes de um mesmo tecido. Um tecido que me envolve e me sustenta. A arte, para mim, nunca foi só entretenimento. Assim como a comida não é só sabor, mas também nutrição, a arte alimenta minha alma e minha mente.

Ela me ajuda a lidar com os desafios, a entender as pessoas e a mim mesma. Não sou menos inteligente ou menos culta por costurar vestidos. Sou, talvez, mais atenta aos detalhes, mais precisa com as palavras, mais sensível às linhas que atravessam não só os tecidos, mas também os sentimentos humanos.


Sou uma mulher introspectiva, de pensamento livre, esclarecida, e, em certos momentos, rebelde. Gosto de conversas profundas, que flertam com o limite — mas não o ultrapassam. Sou movida pela beleza das ideias e pela força das mãos que as concretizam.


E se me perguntam o que eu faço, digo com orgulho: sou leitora, sou escritora amadora, sou cinéfila... e sou costureira. E não há contradição alguma nisso. Pelo contrário — há um grande alinhavo de coerência, onde cada ponto, cada escolha, cada leitura e cada costura me fazem ser quem sou: uma mulher que pensa, sente e cria com as mãos, com a mente e com o coração.

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