A calça
A vontade era devolver a calça do jeito que chegou: amassada, esquecida de qualquer capricho. Mas alguma coisa sempre me impede. Talvez seja auto respeito, talvez seja essa estranha lealdade ao tecido, nunca à pessoa que o veste.
O cliente mandou foto provando a peça, queria mostrar onde incomodava. Mandou sem camisa. Desnecessário, mas planejado. Gente bonita sabe a arma que carrega no corpo, e usa como se fosse direito. Eu só precisava ver a cintura, mas ele fez questão de me entregar um bônus. E foi bem recebido, confesso.
Barriga chapada, peitoral marcado. Não é de todo desagradável topar com esse tipo de vista no meio da rotina. Eu finjo que só olhei a costura, mas quem disse que sou indiferente ao sexo masculino? Eu disfarço bem, e pronto.
Ainda assim, a gente aprende a não cair em truques baratos. O ofício pede foco: máquina, ferro, tecido. Não faço por ele e seu pack de seis. Faço porque é isso que sei, e porque desenvolvi uma devoção secreta ao tecido e a esse trabalho que escolhi.
No fim, a calça volta a ele impecável, como saída da loja. Essas lojinhas esnobes que sei que esse tipo ama. Vai cair como uma luva. Ele vai acreditar que impressionou — talvez ache que foi pelo físico, pela marra. Ele vai achar até que eu não notei a malandragem. Mal sabe ele que o verdadeiro espetáculo foi silencioso: eu reparei, gostei, e guardei só pra mim.
E para quem ler.



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